O Brasil no Centro da Disputa Global: Dois Projetos Antagônicos de Nação
Escrito pelo Professor M.e. Jefferson Murilo Palmeira Chaves, Maceió, 22 de outubro de 2026.
O Brasil está no centro de uma disputa global devido ao seu papel estratégico como potência ambiental, grande produtor de alimentos e detentor de vastas reservas de minerais críticos. Mais do que uma disputa entre candidatos, a eleição decidirá os rumos futuros do país, pois coloca frente a frente dois modelos antagônicos de desenvolvimento econômico, de inserção geopolítica global e de prioridades socioambientais para as próximas décadas.
De um lado, apresenta-se o Projeto Social-Desenvolvimentista/Democrático-Inclusivo, focado na reconstrução de políticas públicas, combate à desigualdade, preservação ambiental e fortalecimento do Estado como indutor econômico. Entre suas pautas centrais, estão: não deixar o preço do gás e da gasolina subir sem controle só porque o dólar subiu; defender as riquezas nacionais como expressão da soberania; adotar jornada de trabalho com duas folgas por semana, sem redução de salário; criar políticas para reduzir as dívidas das famílias; combater o crime organizado atacando suas fontes financeiras; ampliar vagas nas universidades; manter cotas para indígenas, quilombolas e negros em universidades e concursos públicos; cobrar impostos dos super-ricos para melhorar saúde, educação e segurança; regular as redes sociais para preservar a democracia, combater fake news e crimes digitais; manter Bolsa Família, Pé de Meia, Vale Gás e outros benefícios sociais; garantir aumento anual do salário mínimo acima da inflação; ampliar o número de creches; fortalecer o SUS para garantir saúde para todos; fortalecer a Casa da Mulher Brasileira para acolher vítimas de violência doméstica; criar o Sistema Único de Segurança, semelhante ao SUS, para unir governo federal, estados e municípios no combate ao crime; ampliar Carretas da Saúde e hospitais para acabar com as filas de exames e cirurgias; e adotar a máxima de que “para o povo trabalhador, proteção, e para o bandido, prisão”. A esse núcleo, somam-se pautas complementares: ampliar o investimento público em ciência, tecnologia e inovação, com foco em soberania digital e transição energética; criar uma política nacional de processamento de minerais críticos, evitando exportar matéria-prima bruta; fortalecer a agricultura familiar e a reforma agrária produtiva, com assistência técnica e crédito acessível; instituir renda básica emergencial para famílias em vulnerabilidade extrema; ampliar a licença parental compartilhada e as políticas de cuidado; criar corredores verdes urbanos e planos municipais de adaptação climática; tributar grandes fortunas, lucros e dividendos; regular plataformas digitais com transparência algorítmica e proteção de dados; universalizar internet de qualidade em escolas e periferias; criar rede nacional de creches e escolas em tempo integral; instituir o Sistema Único de Segurança com integração de inteligência; garantir aposentadoria digna e revisão das regras de idade sem retirar direitos; e proteger territórios indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
De outro lado, apresenta-se o Projeto Ultraneoliberal-Conservador, focado na desestatização, na tônica de mercado, em pautas de segurança pública tradicionais, em valores conservadores e na oposição ao modelo fiscal centralizado. No plano teórico, o documento protocolado junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso” e estabelece diretrizes baseadas no endurecimento penal, no livre mercado e em profundas reformas institucionais no funcionalismo e no Poder Judiciário. Na área da segurança pública, a estratégia central foca no combate ao crime organizado e no aumento da rigidez penal. O plano prevê classificar as principais facções criminosas como organizações terroristas, além de propor o fim da progressão de regime para crimes hediondos e a redução da maioridade penal para 16 anos em casos graves. O programa também projeta uma expansão do sistema penitenciário nacional para criar novas vagas, atrelando a permanência do preso ao trabalho obrigatório. Para a economia e gestão pública, as diretrizes priorizam o corte de despesas do Estado e a atração de investimentos privados. O plano defende a substituição do arcabouço fiscal por um teto baseado na trajetória da dívida pública, acompanhado de propostas de desestatização e redução da carga tributária. No âmbito institucional, propõe-se o enxugamento da máquina administrativa, a digitalização dos serviços, o fim de decisões monocráticas no Judiciário e a extinção da reeleição no Executivo, com mandatos ampliados para cinco anos. Suas principais bandeiras incluem: oferecer o Brasil para exploração dos Estados Unidos; não reconhecer as mudanças climáticas e não ter plano de governo para proteger a população e as cidades ameaçadas por enchentes e secas; “acabar” com o auxílio BPC para famílias com pessoas doentes; defender o armamento da população; facilitar contratações sem carteira assinada, deixando trabalhadores sem férias, 13º salário, seguro-desemprego e outras garantias; tentar impedir a votação da nova escala de trabalho com duas folgas por semana; adotar o “tesouraço” nos gastos públicos, reduzindo serviços públicos gratuitos; aumentar a idade e reduzir o valor da aposentadoria; privatizar praias; defender o fim do Pix; privatizar 95% das estatais, como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa, assim como luz e água; acabar com 18 ministérios importantes e trocar trabalhadores por Inteligência Artificial (IA); privatizar o SUS e adotar saúde somente para quem puder pagar; acabar com as leis trabalhistas, deixando cada empregado negociar direto com o patrão; e mudar a Constituição Cidadã para acabar com direitos sociais, como moradia, saúde e educação. A esse núcleo, somam-se pautas complementares: reduzir o tamanho do Estado com corte de ministérios e secretarias; flexibilizar leis trabalhistas e permitir contratação sem carteira assinada; substituir servidores públicos por inteligência artificial e terceirização; privatizar água, luz e saneamento; reduzir restrições à compra de armas; revogar políticas ambientais; acabar com benefícios assistenciais; facilitar a exploração de recursos naturais por empresas estrangeiras, especialmente dos EUA; regular redes sociais apenas para retirar conteúdos contrários ao governo; priorizar segurança pública com penas mais duras e redução da maioridade penal.
Esses projetos se refletem nas bases de apoio de cada candidatura. O bloco de apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concentra-se em setores que se beneficiam do papel indutor do Estado na economia, como a indústria de alta tecnologia e transição verde, empresas de construção civil e infraestrutura atreladas ao Novo PAC, além de bancos públicos e sindicatos. Regionalmente, a candidatura conta com o suporte das alas do centro político (como PSD e MDB) fortemente consolidadas nas regiões Norte e Nordeste. Por outro lado, o bloco de Flávio Bolsonaro (PL) atrai setores que defendem o livre mercado, a desregulamentação e o controle rígido de gastos públicos. Seu núcleo de apoio é formado pelo agronegócio, pelo mercado financeiro — que reage positivamente a promessas de cortes fiscais e privatizações — e pelo comércio, que se opõe a novas obrigações trabalhistas. Politicamente, essa ala agrega a direita e o centro tradicional do Sul e Sudeste, contando com a articulação de partidos como Republicanos, PP, Novo e União Brasil.
Geopoliticamente, o Brasil atua como um “país pêndulo” entre a China (sua maior parceira comercial) e os Estados Unidos (que tentam ampliar sua influência por meio de pressões e tarifas). Essa disputa não é apenas econômica; é também simbólica. A frase “O Brasil não cabe no quintal de ninguém” ganhou grande repercussão após ser dita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro de 2026, durante seu discurso na 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, e também dá título a uma conhecida obra literária: O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores do FMI e dos BRICS e a distração nacional, do economista Paulo Nogueira Batista Jr. Com base em sua experiência como diretor executivo no Fundo Monetário Internacional (FMI) e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos BRICS), o autor constrói uma análise crítica e autobiográfica das relações internacionais do Brasil, dos bastidores de crises financeiras globais e da formulação de políticas multilaterais, contestando a subordinação diplomática e econômica historicamente adotada por parcelas das elites brasileiras e criticando o chamado “complexo de vira-lata”. A obra dialoga, assim, diretamente com o debate sobre soberania nacional e com a resistência interna à consolidação do Brasil como ator global independente. Contudo, analistas apontam que o grande desafio do Brasil não é apenas possuir minerais essenciais para a tecnologia e a indústria de defesa, mas sim desenvolver a capacidade de processá-los, uma etapa atualmente dominada pelos chineses. O resultado eleitoral vai ditar como o Brasil se posicionará no cenário de disputa tecnológica e de recursos naturais entre potências como Estados Unidos e China, além de definir sua posição internacional, o modelo de geração e distribuição de riquezas e o grau de concentração econômica para as próximas gerações. Diante disso, surgem questões centrais: como os dois modelos econômicos defendidos pelas candidaturas disputam a hegemonia do modelo de desenvolvimento nacional? Como a fragmentação do Congresso Nacional eleito no primeiro turno molda e limita o projeto do futuro presidente?
O documentário apresentado por Wagner Moura (2026) sustenta que o Brasil possui uma riqueza subterrânea estratégica: terras raras, nióbio e grafite, recursos essenciais para a indústria tecnológica, a transição energética e a defesa. Segundo a narrativa, o país tem a segunda maior reserva mundial de terras raras, a segunda maior de grafite e a maior de nióbio, o que o tornaria peça central na disputa entre Estados Unidos e China. O vídeo afirma que, diante do fechamento do fornecimento chinês, o Brasil seria o único país com reservas suficientes para tentar substituir a China no abastecimento americano. A partir desse diagnóstico, o documentário descreve um suposto “complô para saquear o Brasil”. A narrativa mostra que empresas americanas já teriam comprado áreas de mineração no sul da Bahia e em Goiás, enquanto o governo brasileiro teria aprovado uma lei exigindo processamento local e respeito à soberania nacional. O texto defende que a exploração pode ocorrer com capital estrangeiro, mas não pode transformar o país em mero exportador de pedra bruta, sem gerar emprego e riqueza internamente. O vídeo também compara a situação brasileira com outros países. Na Ucrânia, um acordo de minerais teria sido imposto após pressão e dependência militar; na Venezuela, os Estados Unidos teriam obtido controle sobre campos de petróleo após a captura de Maduro; no Irã, a guerra e o petróleo aparecem associados; na Colômbia e na Argentina, acordos de minerais críticos teriam sido firmados após apoio político e empréstimos. A partir desses exemplos, o documentário afirma que o método se repete: primeiro vem a pressão, depois um governo alinhado e, por fim, o acordo de exploração. No caso brasileiro, a narrativa cita a taxação de 50% sobre produtos brasileiros e uma lista de 21 exigências entregue pelo governo americano. Entre os itens, estariam anistia aos condenados pelo golpe, tarifa zero para produtos americanos, fim do Pix e tratamento preferencial para empresas dos Estados Unidos na venda de minerais críticos. O documentário também menciona a exigência de limitar investimentos de “entidades estrangeiras preocupantes”, interpretada como uma referência à China. Segundo o vídeo, a diplomacia brasileira teria tratado a lista como “arquivo morto”. O documentário aponta ainda nomes de brasileiros que estariam atuando em favor de interesses americanos. São citados Paulo Figueiredo, neto do general João Figueiredo, Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, André Marinho e Pedro Sang, associado à Rock Bridge. O vídeo afirma que esses personagens participariam de articulações para entregar ao governo Trump uma riqueza estratégica brasileira. A narrativa também menciona um fundo ligado a Donald Trump Jr. com investimentos em empresa fornecedora de ímãs que teria contrato com mineradora na Bahia. Por fim, o documentário ouve o general Santos Cruz, ex-ministro de Jair Bolsonaro, que classifica o extremismo como “vigarice” e “submissão voluntária”. O general afirma que o Brasil não pode vender terras raras como se fosse minério de ferro e que um país do tamanho do Brasil só se tornaria colônia se alguém “de dentro abrir a porta”. A conclusão do vídeo é que o Brasil tem uma posição estratégica única, mas a pergunta central é quem será o dono dessa riqueza: os brasileiros ou um grupo disposto a entregá-la ao exterior.
Com a vitória de Lula, Flávio Bolsonaro não será relevante: o que se contará é a decadência de um império, o imperialismo dos EUA e o aumento drástico de sua intervenção em outros países — por bombardeios e genocídio, sequestro de presidentes, bloqueio naval ilegal e interferência em eleições —, inclusive na retomada de controle sobre a maior parte da América Latina; por isso, a derrota de Flávio Bolsonaro, de Trump, de Netanyahu e das big techs aqui deveria marcar o momento de dizer que a extrema direita chegou até aqui e que agora começa a retomada do continente, pois, caso contrário, dirão que big techs, bilionários e o complexo industrial-militar controlaram totalmente a América Latina e prolongaram seu declínio; quem acredita na autodeterminação dos povos, na paz para deter o desastre ambiental planetário e em uma sociedade mais justa não pode aceitar isso, sobretudo quando o imperialismo vem junto com o sionismo — ideologia racista, supremacista e odiosa, como no genocídio em Gaza — e tenta tomar o país, encontrando alguém sem projeto de nação, corrupto e miliciano, que aceita ser sócio minoritário e marionete para se dizer presidente do Brasil, embora o Brasil acabaria governado pela América do Norte.
“A República das Milícias: Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro” é um livro de jornalismo investigativo escrito pelo pesquisador Bruno Paes Manso. Publicado em 2020 pela Editora Todavia, a obra venceu o Prêmio Jabuti 2021 na categoria Reportagem. O livro detalha as origens e a influência política dos grupos paramilitares no Rio de Janeiro. A investigação reconstrói a história da violência urbana fluminense ao longo de seis décadas. O autor explica como os esquadrões da morte formados por policiais nos anos 1960 abriram caminho para o crescimento das facções do tráfico de drogas nas décadas seguintes. Nos anos 2000, as milícias consolidaram um modelo de negócios baseado na cobrança de taxas de segurança e no controle de serviços básicos como gás, água e internet. A obra foca na infiltração direta desses grupos criminosos no poder público e no debate político nacional. Bruno Paes Manso utiliza depoimentos detalhados para traçar o perfil de figuras centrais do submundo carioca, como Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega e Ronnie Lessa. O texto conecta essa evolução a episódios de grande impacto nacional, como o assassinato da vereadora Marielle Franco. O sucesso do livro originou um podcast documental homônimo produzido pela Rádio Novelo. Disponível no Globoplay, a série em áudio possui oito episódios roteirizados e apresentados pelo próprio autor. A produção aprofunda os relatos da obra literária para explicar as engrenagens do domínio paramilitar.
Essas perguntas ganham contornos ainda mais sombrios à luz da tradição de rupturas autoritárias que molda o constitucionalismo brasileiro. A maldição de Cassandra e o debate sobre os Projetos de Brasil no 2º turno das eleições presidenciais expressam essa tensão. A sina da profetisa grega — condenada a prever o desastre e ser ignorada — manifesta-se desde o nascimento da República, instaurada a partir do golpe militar de 15 de novembro de 1889, que extinguiu abruptamente o Brasil Império e a Constituição de 1824. Esse padrão trágico de subversão institucional repetiu-se na Revolução de 1930, que revogou a Carta de 1891, e no Golpe do Estado Novo de 1937, que anulou sumariamente a recém-promulgada Carta de 1934. Foi nesse contexto que se consolidou uma das expressões mais emblemáticas da subversão jurídica no Brasil: o Tribunal de Segurança Nacional (TSN). Criado por Getúlio Vargas em 1936, o TSN nasceu inicialmente para julgar os envolvidos na Intentona Comunista de 1935. Com a instauração da ditadura do Estado Novo em 1937, a corte foi desvinculada do Poder Judiciário comum e tornou-se o principal braço jurídico de repressão do regime, estendendo sua competência para julgar qualquer cidadão considerado uma ameaça política ou econômica ao Estado. Sua composição era híbrida e controlada pelo governo, misturando juízes civis com oficiais do Exército e da Marinha. Essa estrutura garantia julgamentos sumários, com prazos asfixiantes para a defesa, validando prisões preventivas prolongadas e aceitando como provas confissões obtidas sob severa tortura nos porões da polícia política de Filinto Müller. O tribunal funcionava de forma soberana e suas decisões não permitiam recursos a cortes superiores, o que eliminava as garantias do devido processo legal. O TSN foi finalmente extinto em novembro de 1945, após a queda de Vargas, mas seu modelo de subversão jurídica serviu de inspiração para a estrutura de perseguição que a Ditadura Militar reativaria décadas mais tarde, em 1964. Esse ciclo culminou no endurecimento ditatorial do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em 1968. O AI-5 materializou o período mais sombrio da ditadura militar brasileira ao subjugar o ordenamento jurídico ao arbítrio do Poder Executivo, transformando o texto constitucional em uma formalidade sem força prática. Ao cassar direitos políticos, fechar o Congresso Nacional, impor a censura prévia e suspender a garantia fundamental do habeas corpus, o regime anulou as liberdades civis e blindou o Estado contra qualquer fiscalização do Poder Judiciário. Essa ruptura institucional não apenas legalizou a violência de Estado e a repressão sistemática, mas também deixou cicatrizes profundas na história do país, servindo até hoje como o principal símbolo do autoritarismo e da supressão da democracia no Brasil. A linhagem que vai do TSN ao AI-5 revela um padrão: a criação de estruturas jurídicas de exceção que, sob aparência de legalidade, esvaziam o Estado Democrático de Direito por dentro. No cenário eleitoral contemporâneo, os avisos de historiadores e juristas sobre a fragilidade das garantias democráticas diante de discursos extremados operam como os clamores de Cassandra: alertas factuais e históricos que correm o risco de ser desprezados pelo eleitorado polarizado. Assim, o que está em jogo não é apenas a vitória de um candidato, mas a reincidente tradição latino-americana de solapar ordens constitucionais, que permanece como uma ameaça real e tragicamente subestimada no debate sobre o futuro do país.
“Quando dou comida aos pobres me chamam de santo; quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista” — Irmã Dulce.
Depois de amanhã o Brasil decidirá se continua no caminho da Democracia, do desenvolvimento com inserção social, da independência nacional com Lula ou se mergulha na fossa do autoritarismo, do crime organizado, da submissão a Trump com Bolsonaro Junior. Que os brasileiros entendam o tamanho do que está em jogo e votem pela continuidade da democracia e pela soberania do Brasil, e contra os milicianos e traidores do país representados pelo Inominável Jr. e toda a sua família, que é herdeira da ditadura. Para quem ainda está indeciso sobre em quem votar, ou nem sabe se vai votar: não desperdice essa oportunidade. O seu voto faz parte das decisões que vão definir o futuro de milhões de brasileiros.
E, para quem rejeita o Lula unicamente por ser antipetista, ainda há tempo para repensar suas prioridades. O cenário político atual do Brasil não nos permite pensar apenas na nossa própria realidade. Enquanto alguns têm o privilégio de se preocupar apenas com suas preferências políticas, milhões de brasileiros ainda lutam pelo básico: comida na mesa, acesso à saúde, educação e dignidade. A política não afeta todo mundo da mesma forma. Uma decisão que parece distante para alguns pode significar a diferença na vida de quem mais precisa. Por isso, votar não deveria ser apenas sobre gostar ou não de um partido, mas também sobre compreender o que está em jogo para o país e para a população. Antes de decidir, olhe para além da sua própria realidade. Informe-se, reflita e pense nas consequências das suas escolhas. Porque a sua escolha não afeta apenas você. E a humanidade precisa pesar mais do que a rejeição a um partido.
Para encerrar, é preciso deslocar a discussão do campo da convicção para o da metodologia científica. Nas ciências sociais, a objetividade não equivale à ausência total de valores: o pesquisador escolhe seus problemas a partir de sua relação com valores, como já observava Max Weber. Contudo, ele deve separar, no processo de demonstração, a análise empírica do juízo normativo. Isso implica explicitar hipóteses, definir conceitos, usar dados verificáveis, admitir contraexemplos, submeter-se à crítica por pares e evitar o viés de confirmação. A ciência não decide qual projeto de Brasil é melhor — isso é debate político —, mas pode mostrar custos, benefícios, riscos e consistência empírica de cada projeto. Assim, em vez de perguntar “qual é o posicionamento político de cada acadêmico?” como um rótulo fixo, proponho uma reflexão pessoal: cada acadêmico deveria indagar em que medida suas escolhas teóricas e metodológicas são informadas por sua visão de mundo. O pesquisador alinhado ao projeto social-desenvolvimentista tende a enfatizar o Estado como indutor, o combate à desigualdade, a transição verde e a soberania tecnológica. O pesquisador alinhado ao projeto ultraneoliberal-conservador tende a enfatizar mercado, desregulamentação, eficiência fiscal, segurança pública e valores tradicionais. Nenhum desses recortes é cientificamente neutro por si, mas ambos podem ser investigados com rigor se suas premissas forem explicitadas e submetidas ao teste dos fatos. A reflexão pessoal que proponho a cada acadêmico é esta: 1) Minhas conclusões resistem a dados contrários? 2) Trato autores divergentes com seriedade ou apenas os caricaturizo? 3) Meu método permite replicação, crítica e revisão? 4) Estou disposto a separar minha preferência política da evidência que apresento? 5) Minha prática acadêmica fortalece a democracia, o pluralismo e os direitos humanos? Responder a essas perguntas não significa abandonar convicções, mas submetê-las à disciplina da dúvida metódica. O risco não é apenas escolher entre dois projetos de país, mas naturalizar rupturas autoritárias como destino. A lição de Cassandra é que alertas ignorados não são inevitáveis: a ciência pode transformar profecia em cenário e cenário em escolha. Que cada acadêmico, ao assumir seu posicionamento — se o assumir —, o faça com transparência, humildade epistêmica e compromisso com a crítica pública.
O caro leitor do futuro saberá qual caminho o Brasil tomou, podendo achar este texto revelador, reflexivo ou, quem sabe, inútil. O que realmente importa, além da participação democrática nas decisões nacionais, é a consciência plena de quais caminhos a coletividade vai seguir: se vai perder uma oportunidade histórica de desenvolver um projeto de nação soberano ou se, finalmente, assumirá o protagonismo de seu próprio destino. Quem viver verá, e contará esses dias de guerra digital aos seus filhos e descendentes.
Por fim, evoco as inúmeras conversas com meu saudoso e amado tio, o Dr. Sebastião Palmeira, cuja trajetória oscilava entre o nacionalismo dos anos 1960 e o conservadorismo adotado em seus últimos anos de vida, quando flertou com o bolsonarismo. Na juventude, participou ativamente da resistência à ditadura civil-militar de 1964, realizando pichações, integrando comícios e enfrentando a violência da repressão policial por meio de bombas de gás. Suas manifestações estendiam-se do brado 'Abaixo a ditadura!', em Anadia, ao 'Yankees go home!', em Brasília, em protesto contra a influência norte-americana no regime militar brasileiro.
Referência
BATISTA JR., Paulo Nogueira. O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores do FMI e dos BRICS e a distração nacional. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: LeYa, 2021. 512 p.
BRASIL. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. São mantidas a Constituição de 24 de janeiro de 1967 e as Constituições Estaduais; O Presidente da República poderá decretar a intervenção nos estados e municípios [...], suspender os direitos políticos [...] e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1968. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ait/ait-05-68.htm. Acesso em: 14 out. 2026.
FILINTO Müller: o torturador sobre o qual não lembramos. Aventuras na História, 2021. Disponível em: https://aventurasnahistoria.com.br/noticias/reportagem/filinto-muller-o-torturador-sobre-o-qual-nao-lembramos.phtml. Acesso em: 14 out. 2026.
WEBER, Max. A “objetividade” do conhecimento na ciência social e na política social. In: GERTH, Hans Heinrich; MILLS, Charles Wright (org.). Ensaios de sociologia. Tradução de Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982.
REVELANDO. O Brasil tem o mesmo molho. E eu não tô falando só... [S. l.]: YouTube, [2025?]. 1 vídeo (27 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=T3gZ6Nn7kZY . Acesso em: 18 out. 2026.












Nenhum comentário:
Postar um comentário